Elevadores e Ascensores Históricos
Elevadores e Ascensores Históricos
Lisboa preserva a sua história não apenas nas ruas e fachadas, mas também nos elevadores e ascensores que, há mais de um século, ajudam a vencer as suas colinas.
Os elevadores e ascensores de Lisboa constituem um património singular da cidade, refletindo um período marcante do seu desenvolvimento urbano, tecnológico e social. Criados para responder aos desafios da topografia lisboeta, estes equipamentos representam soluções inovadoras da engenharia do final do século XIX e início do século XX, integradas de forma harmoniosa no tecido urbano.
Para além da sua função enquanto meios de transporte público, os elevadores e ascensores assumem um relevante valor patrimonial, arquitetónico e cultural. Estruturas como o Elevador de Santa Justa e os ascensores da Glória, da Bica e do Lavra são hoje símbolos da identidade de Lisboa, testemunhando a evolução da cidade e a permanência de infraestruturas que continuam em funcionamento.
Para garantir a segurança, o guarda-freio utilizava uma corneta de aviso ao longo de todo o percurso. Contudo, o som estridente tornou-se rapidamente insuportável para os moradores, dando origem a críticas, rimas e anedotas nos jornais diários:
“Buzinando, pó, pó, pó
Levando gentes, leva tralha.
Mas já ninguém faz ó-ó,
Nas horas em que ele trabalha…”
Hermman, um eletricista inglês que vivia na calçada do ascensor, convidado para realizar a demonstração pública, encontrou uma solução: instalou uma luz elétrica — uma tecnologia raríssima na altura — para sinalizar a aproximação do veículo. O alerta sonoro foi substituído pelo sinal luminoso, devolvendo o sossego ao bairro. A facilidade de vencer a íngreme Calçada do Lavra sem esforço permanece, até hoje, um conforto essencial da cidade.
Contudo, a 24 de outubro de 1885, o Ascensor da Glória era finalmente inaugurado, estabelecendo a ligação entre duas zonas densamente povoadas: a Baixa e o Bairro Alto. A população acorreu em peso para testemunhar a chegada do tão aguardado meio de transporte. Na primeira descida, o carro seguia completamente cheio, exibindo as modas da época, com passageiros vestidos a rigor para desfrutar da novidade.
Comparado com o Lavra, o da Glória era mais amplo: oferecia 24 lugares no interior e permitia viajar no tejadilho — a chamada “imperial” — a que se acedia por uma pequena escada em caracol. Ali, num banco duplo onde se sentavam costas com costas, os passageiros desfrutavam de uma vista privilegiada, ainda que arriscada, pois as faces passavam por vezes a escassos centímetros das árvores dos jardins. Pelo preço de um vintém, era uma experiência imperdível.
Nos primeiros anos, a iluminação noturna era feita com velas de estearina que, por segurança, eram recolhidas todas as noites. O ascensor permanece como um ícone de Lisboa, embora a icónica "imperial" tenha sido removida por razões de segurança, alterando para sempre o seu perfil original.
Calendário alegre
Veio à luz bem malfadado,
Todo cheio de aleijões
O elevador que se arrasta
Desde a Estrela até Camões
Ele suspende seu curso
Por já não poder andar.
Ele pára a meia encosta
Por sofrer de falta de ar.
Ele agora, para cúmulo
De seus destinos ronceiros,
Até se propõe dar cabo
Não de si – dos passageiros
A 14 de julho de 1913, a Ilustração Portuguesa, revista semanal editada pelo jornal O Século, anunciava a «Morte do Maximbombo» em tom de despedida — e de alívio: «Morreu o Maximbombo da Estrela! Ha mais tempo que ele se tivesse sumido, o mostrengo, para dar logar a coisa mais moderna, mais decente. Aquilo era mesmo um mostrengo: pesado, incomodo, infecto e amaldiçoado como um assassino.»
Chegava assim ao fim a era do Elevador da Estrela, definitivamente remetido à memória da cidade e substituído pela modernidade dos carros elétricos.
No bairro, a resistência era também popular. A rapaziada local causava distúrbios constantes: roubavam peças, desfaziam trabalhos concluídos e obstruíam as calhas com pedras e madeiras, num rebuliço de gritos e assobios.
Quando finalmente se marcaram as primeiras experiências, os lisboetas acorreram ao local, mas os carros recusaram-se a andar. Como se não bastasse, o sistema de travões encomendado à Alemanha revelou-se ineficaz, exigindo uma substituição que atrasou ainda mais o projeto.
Por essa altura, chegava o mês de junho e os Santos Populares. Perante o impasse, restava esperar por um milagre de Santo António. Num dos diários da capital, surgiu mesmo uma carta aberta dirigida ao Santo Padroeiro e a Gomes Neto, um dos diretores da Companhia:
O Elevador da Bica e o Santo António
O Santo António escreveu,
em português mui correcto,
uma carta ao Gomes Neto,
podem crer, que li-a eu:
Em um período dizia-lhe:
Você conhece-me o génio,
quero aí ir a Lisboa,
pr'a saber a história a fundo,
do empréstimo e o convénio:
épr'a honrar-me seu Neto,
No dia 12 de Junho,
assentado isto, pois fica,
quer-se a inauguração,
do Elevador da Bica,
diga ao q'rido Mesnier,
ao simpático engenheiro,
que vou ver a sua obra,
de um valor tão verdadeiro.
Santo António comprovou a sua fama de milagreiro e, a 29 de junho de 1892, o Ascensor da Calçada da Bica Grande fazia-se finalmente ouvir.
Outro dos motivos que levou ao prolongamento da obra, eram as condições das ruas, junto do Arco de Sant’Ana e no cimo da Calçada da Graça, as curvas eram apertadas e os carros tinham dificuldades, forçando o engenheiro Mesnier du Ponsard e a empresa a meses de reajustes no projeto.
A inauguração oficial ocorreu finalmente a 26 de março de 1893, mas a receção não foi isenta de críticas. O preço do bilhete — 50 réis — era considerado excessivo pela população que, em protesto, optava por utilizar o elevador apenas em casos de absoluta necessidade.
Mais tarde, uma sucessão de acidentes na curva do Arco de Santo André levou as autoridades a ponderar a demolição da estrutura. Não se concretizou devido à intervenção da Sociedade de Arqueologia, que defendeu o arco como uma das portas fundamentais da Cerca Fernandina de Lisboa. O Elevador da Graça resistiu ainda alguns anos, acabando por desaparecer após a fusão da Companhia de Ascensores com a CARRIS.
O susto de 1901: Passageiros "nas nuvens"
Em 1901, o elevador protagonizou um episódio que parou a cidade. Durante uma manobra de rotina, o eixo volante superior partiu-se. O incidente manifestou-se com um solavanco e a imobilização imediata das cabinas no ar. Valeu a precisão dos travões automáticos, que evitou a queda livre, deixando, porém, os passageiros encurralados a uma altura considerável.
A notícia espalhou-se rapidamente e a Calçada de São Francisco encheu-se de curiosos que aguardavam para ver de que forma os passageiros seriam retirados dali. Na cabina inferior encontravam-se quatro homens e uma senhora; na superior, três senhoras e um homem acompanhado por um papagaio.
O resgate foi digno de uma peça de teatro. Os ocupantes da cabina inferior foram retirados com uma escada simples, saltando de telhado em telhado até ao pátio da estação. Já para a cabina superior, foi necessária a famosa escada Magirus dos bombeiros. Como a escada balançava perigosamente, o chefe Manuel Silvério teve de subir ao topo para a estabilizar, permitindo que o bombeiro n.º 13 ajudasse as senhoras a descer.
O momento gerou gargalhadas e comentários atrevidos na multidão, especialmente quando uma das senhoras, de porte avantajado, recusou terminantemente que o bombeiro lhe segurasse as saias durante a descida, preferindo manter o recato apesar do perigo.
O episódio inspirou os seguintes versos em jornais diários:
E a aflição da pobre gente
O susto, o pasmo, o terror,
Quando parou de repente
A caixa do elevador
Que descia docemente?
E aquela dama, coitada,
Vinda dos altos poleiros,
Tristemente arregaçada,
Segura pelos bombeiros,
A descer enorme escada?
E os diversos desgraçados
Que andaram aos pontapés,
Feitos gatos assanhados,
Feitos limpa-chaminés,
A atravessar os telhados?
Ora quando aquilo assusta
Faz tão medonho escarcéu
Que fará, e isso é que custa,
Quando, enfim, chegar ao céu
O guincho de Santa Justa?
E o desconsolo, o pesar,
A mágoa, a triste amargura
De tudo aquilo parar
E encontrar sepultura
Na altura de um quinto andar?
Ao sol o zimbório arrima,
Faz finca-pé cá na rua,
E qualquer dia- ó vindima! -
Deixa os fregueses na lua,
Nem p'ra baixo, nem para cima!
Apesar das expectativas e dos atrasos técnicos, a inauguração ocorreu a 15 de janeiro de 1899, num clima de verdadeira festa popular. Houve foguetes, música de bandas filarmónicas e até a distribuição de um bodo a duzentas pessoas carenciadas no Largo da Igreja de São Sebastião da Pedreira.
O novo transporte revolucionou o quotidiano daquela zona. Onde antes os carros da CARRIS eram obrigados a fazer trajetos longos para evitar as subidas íngremes, o elevador permitia agora ligar o Largo de São Domingos a São Sebastião em apenas vinte minutos. Apesar do entusiasmo inicial e do contributo para o movimento do Jardim Zoológico, o Elevador de São Sebastião acabaria por sucumbir à modernização e expansão definitiva das linhas da CARRIS.
Duas inaugurações para a história
O Elevador de Santa Justa detém o título único de ter tido duas inaugurações. A primeira, a 1 de agosto de 1901, celebrou o lançamento da ponte metálica de 25 metros. Na presença da Família Real, a multidão assistiu, atónita, a operários que realizavam acrobacias a grande altura para fixar bandeiras na estrutura. A festa foi animada: música, aplausos e um lanche festivo marcado por discursos e brindes enaltecendo o trabalho realizado. O feito foi notável: a ponte, com cerca de vinte mil quilos, foi instalada sem o recurso a andaimes. Em jeito de agradecimento, o popular engenheiro ofereceu um jantar de confraternização a todos os trabalhadores.
No dia seguinte, as obras continuaram normalmente. A inauguração definitiva teve lugar a 10 de julho de 1902. As duas cabinas, cuidadosamente ornamentadas e elegantemente decoradas, aguardavam os passageiros — trinta em cada uma. Foi uma cerimónia memorável: o elevador estava enfeitado desde as torres até à passarela com flores, arbustos e bandeiras. Ao meio-dia, uma salva de doze morteiros anunciou oficialmente a abertura do elevador, que transportou as figuras mais importantes da cidade sem qualquer problema. A banda tocou o “Hino da Carta” e, quando as autoridades se retiraram, a população lançou-se às cabinas com entusiasmo. Os elogios multiplicaram-se: além da eficiência do transporte, a requintada decoração das cabinas — mandadas construir especialmente em Paris — enchia de orgulho todos os que nelas viajavam.
Como era hábito, a imprensa não deixou passar o momento em branco, imortalizando a nova joia da Baixa com versos e crónicas:
Lá subi pelas alturas
Do famoso elevador
Às regiões mais que puras
Onde Deus Nosso Senhor
Julga as pobres criaturas.
Desde a Graça até Alfama,
Envolta na deusa pele
Da Névoa algodão em rama
Lá mirei da passerelle
Lisboa teu panorama.
Que linda és, estendida
Sobre o Tejo de cristal,
Como fêmea adormecida,
Rainha de Portugal,
Padroeira da Avenida!
Como eu, lá no carrapito
Desse férreo coruchéu,
Me lastimei dando um grito
De ter marinhado ao céu
Vindo de um céu mais bonito!
Ó lindos longes da Graça,
Ó torres de S. Vicente,
Ó burburinho da praça,
Ó trapeiras do Intendente;
Ó sol que esbate a vidraça!
Ó negras torres da Sé,
Ó paragens do Bugio,
Ó bronze de Dom José!
Descei-me daqui, descei
Que eu não quero descer a pé.