Elevadores e Ascensores Históricos

Elevadores e Ascensores Históricos

Lisboa preserva a sua história não apenas nas ruas e fachadas, mas também nos elevadores e ascensores que, há mais de um século, ajudam a vencer as suas colinas.

Os elevadores e ascensores de Lisboa constituem um património singular da cidade, refletindo um período marcante do seu desenvolvimento urbano, tecnológico e social. Criados para responder aos desafios da topografia lisboeta, estes equipamentos representam soluções inovadoras da engenharia do final do século XIX e início do século XX, integradas de forma harmoniosa no tecido urbano.

Para além da sua função enquanto meios de transporte público, os elevadores e ascensores assumem um relevante valor patrimonial, arquitetónico e cultural. Estruturas como o Elevador de Santa Justa e os ascensores da Glória, da Bica e do Lavra são hoje símbolos da identidade de Lisboa, testemunhando a evolução da cidade e a permanência de infraestruturas que continuam em funcionamento.

Ascensor do Lavra (1884)

O 1.º ascensor em Lisboa

Nasceu na Calçada do Lavra, estabelecendo a ligação entre o Largo da Anunciada e a Travessa do Forno do Torel.

O seu nome deve-se ao facto de, no final da Travessa do Forno do Torel, existir um palácio pertencente ao tesoureiro-mor da rainha D. Maria Francisca de Saboia, cujo apelido era Silva Lavra. Pela proximidade, o ascensor acabou por ficar conhecido como “Ascensor do Lavra”.

No dia da inauguração, 19 de abril de 1884, funcionou durante treze horas seguidas e transportou gratuitamente cerca de treze mil passageiros. Embora hoje o associemos à eletricidade, o Lavra começou por ser um prodígio da engenharia hidráulica, movido por um sistema de contrapeso de água.

Para garantir a segurança, o guarda-freio utilizava uma corneta de aviso ao longo de todo o percurso. Contudo, o som estridente tornou-se rapidamente insuportável para os moradores, dando origem a críticas, rimas e anedotas nos jornais diários:

“Buzinando, pó, pó, pó

Levando gentes, leva tralha.

Mas já ninguém faz ó-ó,

Nas horas em que ele trabalha…”

Hermman, um eletricista inglês que vivia na calçada do ascensor, convidado para realizar a demonstração pública, encontrou uma solução: instalou uma luz elétrica — uma tecnologia raríssima na altura — para sinalizar a aproximação do veículo. O alerta sonoro foi substituído pelo sinal luminoso, devolvendo o sossego ao bairro. A facilidade de vencer a íngreme Calçada do Lavra sem esforço permanece, até hoje, um conforto essencial da cidade.


Ascensor da Glória (1885)

A afirmação do transporte mecânico na capital

A construção do Ascensor da Glória esteve longe de ser tranquila. Uma sucessão de contratempos atrasou a obra e levantou várias resistências. Muitos não viam com bons olhos a instalação de carris na via pública.

A direção dos “Recreios Withoyne” (um popular espaço de diversões da época) chegou a embargar os trabalhos, alegando que o ascensor impediria a passagem das jaulas dos animais para os seus espetáculos. Nas imediações, o proprietário de um picadeiro exigiu indemnizações, argumentando que o barulho e a estrutura de ferro assustavam os cavalos e perturbavam a vizinhança. Até o administrador do Marquês de Castelo Melhor exigiu uma avultada compensação caso a obra avançasse.

Para agravar o cenário, os prazos falharam e o material tardava em chegar. Quando os carros encomendados à Alemanha finalmente desembarcaram na Alfândega, ocorreu um novo percalço: durante o transporte, a zorra que os carregava despistou-se na Rua dos Capelistas, danificando-os. Felizmente, não houve feridos, mas o incidente somou novos custos e semanas de atraso.

Contudo, a 24 de outubro de 1885, o Ascensor da Glória era finalmente inaugurado, estabelecendo a ligação entre duas zonas densamente povoadas: a Baixa e o Bairro Alto. A população acorreu em peso para testemunhar a chegada do tão aguardado meio de transporte. Na primeira descida, o carro seguia completamente cheio, exibindo as modas da época, com passageiros vestidos a rigor para desfrutar da novidade.

Comparado com o Lavra, o da Glória era mais amplo: oferecia 24 lugares no interior e permitia viajar no tejadilho — a chamada “imperial” — a que se acedia por uma pequena escada em caracol. Ali, num banco duplo onde se sentavam costas com costas, os passageiros desfrutavam de uma vista privilegiada, ainda que arriscada, pois as faces passavam por vezes a escassos centímetros das árvores dos jardins. Pelo preço de um vintém, era uma experiência imperdível.

Nos primeiros anos, a iluminação noturna era feita com velas de estearina que, por segurança, eram recolhidas todas as noites. O ascensor permanece como um ícone de Lisboa, embora a icónica "imperial" tenha sido removida por razões de segurança, alterando para sempre o seu perfil original.


Elevador da Estrela (1890)

Engenharia ao serviço de um percurso exigente

O Elevador da Estrela foi o terceiro a ser instalado em Lisboa e entrou em funcionamento a 15 de agosto de 1890.

Embora visualmente se assemelhasse a um elétrico, foi batizado como ascensor Camões-Estrela. Inicialmente, ligava o Largo de Camões à Estrela, sendo mais tarde prolongado até à Rua dos Bemcasados (atual Rua Silva Carvalho).

A implementação deste sistema de tramway-cabo — com carros tracionados por cabo sob carris embutidos na via pública — enfrentou inúmeros obstáculos. O percurso extenso, a complexidade do sistema e a irregularidade do terreno, aliados à densidade habitacional e à estreiteza das ruas, representaram desafios constantes para o engenheiro Mesnier du Ponsard. Apesar do seu esforço em solucionar cada entrave técnico, Ponsard acabou por trespassar a concessão à Companhia dos Elevadores (mais tarde, Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa).

Contudo, a modernidade prometida foi manchada por constantes avarias, o que fez do Elevador da Estrela um alvo recorrente de troça entre os lisboetas da época. No Diário Ilustrado de novembro de 1890, o humorista Esculápio rimava:

Calendário alegre

Veio à luz bem malfadado,

Todo cheio de aleijões

O elevador que se arrasta

Desde a Estrela até Camões

 

Ele suspende seu curso

Por já não poder andar.

Ele pára a meia encosta

Por sofrer de falta de ar.

 

Ele agora, para cúmulo

De seus destinos ronceiros,

Até se propõe dar cabo

Não de si – dos passageiros

A 14 de julho de 1913, a Ilustração Portuguesa, revista semanal editada pelo jornal O Século, anunciava a «Morte do Maximbombo» em tom de despedida — e de alívio: «Morreu o Maximbombo da Estrela! Ha mais tempo que ele se tivesse sumido, o mostrengo, para dar logar a coisa mais moderna, mais decente. Aquilo era mesmo um mostrengo: pesado, incomodo, infecto e amaldiçoado como um assassino.»

Chegava assim ao fim a era do Elevador da Estrela, definitivamente remetido à memória da cidade e substituído pela modernidade dos carros elétricos.


Elevador do Chiado (1892)

O projeto polémico que dividiu a cidade

Em 1890, a imprensa noticiava o projeto de um novo ascensor mecânico que ligaria a Rua Nova do Carmo à Rua do Crucifixo, atravessando o edifício onde se encontra o Hotel Universal.

Os jornais não pouparam críticas: ridicularizavam os promotores da ideia e manifestavam preocupação com a possibilidade de Lisboa se transformar numa cidade recortada por elevadores em todo o lado.

Apesar das objeções, o Elevador do Chiado foi inaugurado a 15 de fevereiro de 1892. Não teve a propaganda nem o alarido habituais, provavelmente por se tratar de uma iniciativa privada. Na porta da Rua do Carmo colocou-se um letreiro a anunciar “Elevador à Rua do Carmo”, e foi assim, de forma simples, que a população ficou a saber do aparecimento de mais um elevador na cidade. No primeiro dia, a afluência foi grande; porém, com o tempo, o número de passageiros começou a diminuir, levando muitos a questionar a real utilidade do equipamento.

Havia ainda dúvidas sobre quem deveria verificar as condições de segurança: sendo o elevador instalado num prédio privado, não caberia à Câmara Municipal fiscalizá-lo; mas, por se destinar ao serviço público, argumentava-se que teria obrigatoriamente de ser inspecionado. Funcionou durante algum tempo ao serviço dos lisboetas, até ser absorvido pela Empresa dos Armazéns do Chiado, que se encontrava então em franca expansão.


Ascensor da Bica (1892)

Superação de atrasos e desafios técnicos

Em 1887, os jornais especulavam sobre a rápida instalação da linha que ligaria a Rua da Moeda à Rua do Calhariz, atravessando a Bica Grande. Contudo, o tempo avançava e os trabalhos pouco progrediam.

Grande parte dos atrasos deveu-se à escassez de verbas e aos elevados custos, reflexo direto das complicações enfrentadas no Elevador da Estrela. A má sorte também marcou presença: chegaram a Lisboa carros que não podiam ser montados porque peças essenciais haviam acabado no fundo do mar, devido a um acidente durante o transporte marítimo. Simultaneamente, a Câmara tardava em instalar o cano geral na Calçada e em autorizar o fecho dos fossos, bloqueando o assentamento dos carris. Para agravar o cenário, proprietários locais e a Junta de Santa Catarina tentaram embargar a obra.

No bairro, a resistência era também popular. A rapaziada local causava distúrbios constantes: roubavam peças, desfaziam trabalhos concluídos e obstruíam as calhas com pedras e madeiras, num rebuliço de gritos e assobios.

Quando finalmente se marcaram as primeiras experiências, os lisboetas acorreram ao local, mas os carros recusaram-se a andar. Como se não bastasse, o sistema de travões encomendado à Alemanha revelou-se ineficaz, exigindo uma substituição que atrasou ainda mais o projeto.

Por essa altura, chegava o mês de junho e os Santos Populares. Perante o impasse, restava esperar por um milagre de Santo António. Num dos diários da capital, surgiu mesmo uma carta aberta dirigida ao Santo Padroeiro e a Gomes Neto, um dos diretores da Companhia:

O Elevador da Bica e o Santo António

O Santo António escreveu,

em português mui correcto,

uma carta ao Gomes Neto,

podem crer, que li-a eu:

 

Em um período dizia-lhe:

Você conhece-me o génio,

quero aí ir a Lisboa,

pr'a saber a história a fundo,

do empréstimo e o convénio:

épr'a honrar-me seu Neto,

 

No dia 12 de Junho,

assentado isto, pois fica,

quer-se a inauguração,

do Elevador da Bica,

diga ao q'rido Mesnier,

ao simpático engenheiro,

que vou ver a sua obra,

de um valor tão verdadeiro.

Santo António comprovou a sua fama de milagreiro e, a 29 de junho de 1892, o Ascensor da Calçada da Bica Grande fazia-se finalmente ouvir.


Elevador da Graça (1893)

Curvas apertadas e tecnologia

O sistema de funcionamento deste elevador em muito se assemelhava ao da Estrela. O trajeto era longo, repleto de curvas e contracurvas.

Ia do Largo da Graça, pelas Calçadas da Graça, de Santo André, dos Cavaleiros, Rua da Mouraria até à Carreirinha do Socorro, desaguando na Rua Nova da Palma, mesmo ao pé do Teatro do Príncipe Real. O povo desta zona há muito que aspirava por uma solução de mobilidade que melhorasse a qualidade de vida no bairro. Prova disso foi a petição entregue na Câmara Municipal em dezembro de 1886, assinada por 800 moradores da Graça, apelando à aprovação do projeto. A expetativa era alimentada por notícias sobre os carros construídos na Alemanha: falava-se de um design elegante, maior conforto, plataformas amplas e inovações técnicas, como a introdução de dois sistemas de travagem (manual e automático), numa época em que o habitual era existir apenas um.

Outro dos motivos que levou ao prolongamento da obra, eram as condições das ruas, junto do Arco de Sant’Ana e no cimo da Calçada da Graça, as curvas eram apertadas e os carros tinham dificuldades, forçando o engenheiro Mesnier du Ponsard e a empresa a meses de reajustes no projeto.

A inauguração oficial ocorreu finalmente a 26 de março de 1893, mas a receção não foi isenta de críticas. O preço do bilhete — 50 réis — era considerado excessivo pela população que, em protesto, optava por utilizar o elevador apenas em casos de absoluta necessidade.

Mais tarde, uma sucessão de acidentes na curva do Arco de Santo André levou as autoridades a ponderar a demolição da estrutura. Não se concretizou devido à intervenção da Sociedade de Arqueologia, que defendeu o arco como uma das portas fundamentais da Cerca Fernandina de Lisboa. O Elevador da Graça resistiu ainda alguns anos, acabando por desaparecer após a fusão da Companhia de Ascensores com a CARRIS.


Elevador do Município (1897)

Um sistema inovador

A 12 de janeiro de 1897, nascia o sétimo elevador lisboeta: o Ascensor do Município-Biblioteca. Embora o nome oficial fosse longo, o povo depressa o batizou como "Elevador de São Julião" ou, simplesmente, "Biblioteca".

Dotado de uma engenharia inovadora para a época, o seu sistema distanciava-se das tipologias de plano inclinado ou de tramway-cabo, mantendo, contudo, o mecanismo de contrapeso de água como princípio motor. À semelhança dos seus antecessores, o elevador erguia-se em direção ao céu através de duas torres verticais unidas por uma passadeira elevada — uma estrutura imponente que intimidava quem nela se aventurava pela primeira vez. A sua operação envolvia uma curiosa particularidade: o acesso fazia-se através de habitações privadas. Para subir, os passageiros cruzavam o portal do n.º 13 do Largo de São Julião (residência do Sr. José Street); a descida processava-se pela porta n.º 32, no terraço do Palácio do Visconde de Coruche.

O susto de 1901: Passageiros "nas nuvens"

Em 1901, o elevador protagonizou um episódio que parou a cidade. Durante uma manobra de rotina, o eixo volante superior partiu-se. O incidente manifestou-se com um solavanco e a imobilização imediata das cabinas no ar. Valeu a precisão dos travões automáticos, que evitou a queda livre, deixando, porém, os passageiros encurralados a uma altura considerável.

A notícia espalhou-se rapidamente e a Calçada de São Francisco encheu-se de curiosos que aguardavam para ver de que forma os passageiros seriam retirados dali. Na cabina inferior encontravam-se quatro homens e uma senhora; na superior, três senhoras e um homem acompanhado por um papagaio.

O resgate foi digno de uma peça de teatro. Os ocupantes da cabina inferior foram retirados com uma escada simples, saltando de telhado em telhado até ao pátio da estação. Já para a cabina superior, foi necessária a famosa escada Magirus dos bombeiros. Como a escada balançava perigosamente, o chefe Manuel Silvério teve de subir ao topo para a estabilizar, permitindo que o bombeiro n.º 13 ajudasse as senhoras a descer.

O momento gerou gargalhadas e comentários atrevidos na multidão, especialmente quando uma das senhoras, de porte avantajado, recusou terminantemente que o bombeiro lhe segurasse as saias durante a descida, preferindo manter o recato apesar do perigo.

O episódio inspirou os seguintes versos em jornais diários:

E a aflição da pobre gente

O susto, o pasmo, o terror,

Quando parou de repente

A caixa do elevador

Que descia docemente?

 

E aquela dama, coitada,

Vinda dos altos poleiros,

Tristemente arregaçada,

Segura pelos bombeiros,

A descer enorme escada?

 

E os diversos desgraçados

Que andaram aos pontapés,

Feitos gatos assanhados,

Feitos limpa-chaminés,

A atravessar os telhados?

 

Ora quando aquilo assusta

Faz tão medonho escarcéu

Que fará, e isso é que custa,

Quando, enfim, chegar ao céu

O guincho de Santa Justa?

 

E o desconsolo, o pesar,

A mágoa, a triste amargura

De tudo aquilo parar

E encontrar sepultura

Na altura de um quinto andar?

 

Ao sol o zimbório arrima,

Faz finca-pé cá na rua,

E qualquer dia- ó vindima! -

Deixa os fregueses na lua,

Nem p'ra baixo, nem para cima!


Elevador de São Sebastião (1899)

A efémera ligação entre o Largo e a Colina

Como nem todos os elevadores conseguiam gerar o lucro esperado e, muitas vezes, as despesas superavam os ganhos, quando se começou a falar da construção deste novo elevador, logo se divulgou que a linha de S. Sebastião da Pedreira oferecia melhores perspetivas de rentabilidade.

Acreditava-se que este novo elevador teria um sucesso superior aos seus antecessores, não só por servir uma zona em expansão, mas por facilitar o acesso ao Jardim Zoológico (então situado nas proximidades) e às povoações rurais vizinhas.

Contudo, o percurso foi acidentado. Com a casa das máquinas e as caldeiras já concluídas na Palhavã, a Câmara Municipal ordenou a suspensão imediata da obra: o terreno estava destinado à expropriação para o projeto do Parque da Liberdade (atual Parque Eduardo VII).

A companhia responsável, A Urbana, que dispunha de poucos recursos, foi forçada a abandonar o projeto. Foi então uma nova empresa, entretanto criada — a Companhia de Viação Funicular — que retomou os trabalhos deixados a meio.

A montagem não escapou às críticas habituais. Comerciantes da Rua de Santo Antão queixavam-se dos prejuízos causados pelas obras, enquanto os transeuntes se irritavam com as constantes alterações de percurso. No plano técnico, a estreiteza das ruas revelou-se um desafio: em certos pontos, os estribos dos carros chegavam a roçar nos passeios, exigindo ajustes de última hora para garantir a segurança dos peões.

Apesar das expectativas e dos atrasos técnicos, a inauguração ocorreu a 15 de janeiro de 1899, num clima de verdadeira festa popular. Houve foguetes, música de bandas filarmónicas e até a distribuição de um bodo a duzentas pessoas carenciadas no Largo da Igreja de São Sebastião da Pedreira.

O novo transporte revolucionou o quotidiano daquela zona. Onde antes os carros da CARRIS eram obrigados a fazer trajetos longos para evitar as subidas íngremes, o elevador permitia agora ligar o Largo de São Domingos a São Sebastião em apenas vinte minutos. Apesar do entusiasmo inicial e do contributo para o movimento do Jardim Zoológico, o Elevador de São Sebastião acabaria por sucumbir à modernização e expansão definitiva das linhas da CARRIS.


Elevador de Santa Justa (1902)

A obra-prima de Mesnier de Ponsard

Inicialmente batizado como elevador do Carmo, este prodígio da engenharia tinha como missão vencer os 31,92 metros que separam a Rua do Ouro do Largo do Carmo.

No início do século XX, o progresso industrial europeu exigia um novo olhar sobre a paisagem urbana. Atento a esta evolução, o engenheiro Raoul Mesnier de Ponsard concebeu uma estrutura que unia funcionalidade e lazer. A sua "caranguejola" de ferro não seria apenas um transporte: no topo, previu-se um miradouro, um restaurante, lojas e até um telescópio para observar a cidade ou os astros.

Nessa época, a Associação dos Arqueólogos Portugueses — instalada nas ruínas do Carmo desde 1864 — mostrava-se muito vigilante em relação a qualquer construção na cidade. Consciente disso, Mesnier apostou forte na vertente decorativa. A recente construção da Estação do Rossio, em estilo neomanuelino, influenciou a evolução do projeto: embora a estrutura metálica se mantivesse fiel à engenharia do ferro, a ornamentação foi aproximada da arquitetura medieval do Convento do Carmo, mandado construir por D. Nuno Álvares Pereira. Esta opção valeu a Mesnier críticas e comentários mordazes na imprensa, aos quais deu pouca importância, focado em transformar o seu plano em realidade. A obra exigiu muito trabalho e colocou frequentemente os operários em situações perigosas. 

Duas inaugurações para a história

O Elevador de Santa Justa detém o título único de ter tido duas inaugurações. A primeira, a 1 de agosto de 1901, celebrou o lançamento da ponte metálica de 25 metros. Na presença da Família Real, a multidão assistiu, atónita, a operários que realizavam acrobacias a grande altura para fixar bandeiras na estrutura. A festa foi animada: música, aplausos e um lanche festivo marcado por discursos e brindes enaltecendo o trabalho realizado. O feito foi notável: a ponte, com cerca de vinte mil quilos, foi instalada sem o recurso a andaimes. Em jeito de agradecimento, o popular engenheiro ofereceu um jantar de confraternização a todos os trabalhadores.

No dia seguinte, as obras continuaram normalmente. A inauguração definitiva teve lugar a 10 de julho de 1902. As duas cabinas, cuidadosamente ornamentadas e elegantemente decoradas, aguardavam os passageiros — trinta em cada uma. Foi uma cerimónia memorável: o elevador estava enfeitado desde as torres até à passarela com flores, arbustos e bandeiras. Ao meio-dia, uma salva de doze morteiros anunciou oficialmente a abertura do elevador, que transportou as figuras mais importantes da cidade sem qualquer problema. A banda tocou o “Hino da Carta” e, quando as autoridades se retiraram, a população lançou-se às cabinas com entusiasmo. Os elogios multiplicaram-se: além da eficiência do transporte, a requintada decoração das cabinas — mandadas construir especialmente em Paris — enchia de orgulho todos os que nelas viajavam.

Como era hábito, a imprensa não deixou passar o momento em branco, imortalizando a nova joia da Baixa com versos e crónicas:

Lá subi pelas alturas 

Do famoso elevador 

Às regiões mais que puras 

Onde Deus Nosso Senhor 

Julga as pobres criaturas. 

 

Desde a Graça até Alfama, 

Envolta na deusa pele

Da Névoa algodão em rama

Lá mirei da passerelle

Lisboa teu panorama. 

 

Que linda és, estendida 

Sobre o Tejo de cristal, 

Como fêmea adormecida, 

Rainha de Portugal, 

Padroeira da Avenida! 

 

Como eu, lá no carrapito 

Desse férreo coruchéu, 

Me lastimei dando um grito 

De ter marinhado ao céu 

Vindo de um céu mais bonito! 

 

Ó lindos longes da Graça, 

Ó torres de S. Vicente, 

Ó burburinho da praça, 

Ó trapeiras do Intendente; 

Ó sol que esbate a vidraça! 

 

Ó negras torres da Sé, 

Ó paragens do Bugio, 

Ó bronze de Dom José! 

Descei-me daqui, descei 

 

Que eu não quero descer a pé.